quinta-feira, 27 de julho de 2017

Memórias da Alma (2)

Dizem que a alma é a única parte vivente de você que sobra depois da morte e acho que a minha já vagou por muito tempo antes de em mim achar recepção. Eu não me lembro de quando tudo aconteceu, como ela me achou ou como ela descobriu que éramos compatíveis. Eu apenas tenho flashes de lembranças que sei não serem minhas. Essas lembranças não me pertencem e acredito não pertencerem a muitos recipientes anteriores ao meu. Essas lembranças não me ardem o coração, não me faz derramar lágrimas alguma e não me arrancam sorrisos.
Às vezes me pergunto se deveria ter mais vontades ou se deveria deixá-la guiar os meus passos, mas mesmo que ela me permitisse não sei o que faria com essa tal liberdade. Ela está comigo já faz um longo tempo e eu sem ela sei não sou nada além de um corpo vazio.
Eu conheço dela tudo o que me permitiu conhecer, sei seus gostos, seus desejos e vontades. Nada pertence a mim. E se ainda me resta um pouco de mim, foi assim por ela permitido. Ela gosta do frio. Ela não olha no rosto das pessoas. Ela ouve músicas tristes. Ela olha sempre para o horizonte. E ela, me fez escrever todas essas palavras.

Memórias da Alma (1)

 Eu estava mais uma vez sentada naquele banco, em um dia frio, com um livro no colo, olhando para o horizonte, além do rio. Era mais um dia que me sentava ali. Pessoas vinham e iam, sentavam-se ao meu lado e depois iam embora. Todos os meus dias eram assim pela manhã. Estava sempre frio, meus olhos estavam sempre presos no vazio, a angustia estava sempre em meu peito e o esquecimento de tudo levava embora toda a graça de estar ali. Eu sabia que deveria estar ali, mas não sabia o porquê. A necessidade de ir todos os dias àquele mesmo banco, naqueles dias frios, sempre urgia, como se fosse a única coisa útil que fazia. Essa necessidade era a única que ainda me fazia sentir viva, mesmo estando tão morta por dentro sentada naquele banco. Após algumas horas eu me levantava e ia embora dali. Era quando meu coração me falava para despertar, pois já tinha tido sua cota diária daquele lugar. No dia seguinte, lá estava eu novamente. Você pode até se perguntar o porquê de eu fazer isso todos os dias, mas nem eu mesma sei. Eu já não faço mais essas perguntas a minha alma, ela sabe tudo, controla tudo, mas não fala comigo. Eu apenas sigo seus desejos para que ela possa para pelo menos um pouco de me afligir. Eu já estou cansada, ela sabe disso, mas sigo em frente como se nada estivesse acontecendo, como se eu não precisasse, como seu eu não estivesse mais viva. Vou para casa mais uma vez. Eu também não me recordo de nada desse lugar. Eu também não sei como consigo chegar a todos os lugares que minha alma insiste em me levar. Eu sou apenas um fantoche dela, mas tudo bem. Eu não tenho nada para viver.