Dizem
que a alma é a única parte vivente de você que sobra depois da morte e acho que
a minha já vagou por muito tempo antes de em mim achar recepção. Eu não me lembro
de quando tudo aconteceu, como ela me achou ou como ela descobriu que éramos
compatíveis. Eu apenas tenho flashes de lembranças que sei não serem minhas.
Essas lembranças não me pertencem e acredito não pertencerem a muitos
recipientes anteriores ao meu. Essas lembranças não me ardem o coração, não me
faz derramar lágrimas alguma e não me arrancam sorrisos.
Às
vezes me pergunto se deveria ter mais vontades ou se deveria deixá-la guiar os
meus passos, mas mesmo que ela me permitisse não sei o que faria com essa tal
liberdade. Ela está comigo já faz um longo tempo e eu sem ela sei não sou nada
além de um corpo vazio.
Eu
conheço dela tudo o que me permitiu conhecer, sei seus gostos, seus desejos e
vontades. Nada pertence a mim. E se ainda me resta um pouco de mim, foi assim
por ela permitido. Ela gosta do frio. Ela não olha no rosto das pessoas. Ela
ouve músicas tristes. Ela olha sempre para o horizonte. E ela, me fez escrever
todas essas palavras.